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ÁGUA - POR QUE RACIONALIZAR?
Discurso do vereador Aurélio Nomura, autor da lei n° 14.018 - SP - que trata da individualização de água
A ameaça de escassez dos recursos hídricos tem colocado a questão das águas no centro das preocupações e disputas em todo o mundo. Se não forem tomadas medidas urgentes com relação à degradação ambiental, ao aquecimento global e ao desperdício, em 2025, metade da população mundial não terá acesso à água potável.
O Brasil que é detentor de 12% das reservas mundiais de água doce enfrenta um grande desafio. Cerca de 70% dos rios em território nacional estão contaminados, isso porque, dos 54,2 milhões de domicílios, somente 12,1 milhões de domicílios, o esgoto recebe algum tipo de tratamento antes de ser despejado nos sistemas hídricos, o que significa que mais de 80% dos domicílios não contam com serviço de tratamento de esgoto. O índice de esgoto tratado, em relação ao volume d’água, distribuído é ainda menor, não chegando a 12%.
Outro entrave é a distribuição de suas águas. Para se ter uma idéia, 80% do volume total das águas estão concentrados na região Norte, que registra a menor densidade populacional do país, 5% dos brasileiros. Ao restante dos habitantes, 95%, compete dividir os 20% das águas disponíveis. Em São Paulo cerca de 3 milhões de pessoas ficam sem água nos períodos de estiagem. Na região Metropolitana de São Paulo a disponibilidade da água é a menor do país 200 m³/hab/ano, produzimos menos da metade da água consumida, o que nos obriga a importação deste bem de bacias vizinhas.
A solução para o problema do fornecimento da água à Grande São Paulo está muito distante e exigirá investimentos bilionários.
Em 2025, a população de São Paulo deverá chegar a 22 milhões de habitantes e para aumentar a oferta de água de 73 m³/s para 105 m³/s, será necessária a execução de pelo menos 11 projetos, a um custo estimado de 5,5 bilhões, o que corresponde de 9% do orçamento estadual em 2004, não contando com o custo nove vezes maior em energia, para o seu bombeamento.
Segundo o professor da USP Aldo Rebouças, especialista em recursos hídricos, grande parte da solução para crise do abastecimento de água se concentra na economia da água, na criação de uma rede secundária para a água de reuso, do aumento da captação de água de chuva, além da ampliação da rede de tratamento de esgoto.
Dados da Secretaria do Estado de Recursos Hídricos mostram que a água de reuso para empresas instaladas em São Paulo, com o objetivo de evitar o uso de água potável nos processos industriais, na irrigação de jardins, resfriamento de caldeiras, etc, ainda é inócua.
O desinteresse das indústrias está no fato de não haver uma rede de distribuição de água de reuso. O fornecimento é feito por caminhões, o que não oferece segurança para manutenção da rotina de uma empresa.
Para a redução do consumo de água, a FIESP, o SindusCon e a ANA publicaram, no ano passado, o Manual do uso Racional e reuso d’água para indústrias, residência e comércio. Com a aprovação da cobrança da utilização da água nas indústrias de São Paulo, a FIESP calcula que as indústrias pagarão cerca de 1 bilhão de reais/mês. A atual diretoria da FIESP, SindusCon e ANA vêm trabalhando para o uso e reuso da água, com objetivos audaciosos como a redução do consumo pela metade.
Aliás, a FIESP, SindusCon e ANA vêm realizando diversos workshops visando a regulamentação da minha lei. Semana anterior ao Carnaval tivemos o 6º ou 7º encontro, e o tema foi exatamente a medição individualizada.
A situação mais agravante está nas regiões de grande densidade populacional, e segundo especialistas do Departamento de Ciências Atmosféricas da USP, em São Paulo entre 1999 e 2002, 60% das chuvas ocorreram nos centros urbanos e não nos mananciais, atraídas pelas ilhas de calor formadas pelas excessivas pavimentações e verticalização.
O Programa Municipal de Conservação e Uso Racional da Água em Edificações, que dá origem à Lei 14.018/2005, vem de encontro às necessidades de manutenção das reservas de água, estabelecendo:
- Instalação de hidrômetro para medição individualizada do volume de água gasto por unidade habitacional
- Instalação de bacia sanitária de volume de 6 litros – norma ABNT
- Instalação de chuveiros com restritores de consumo e lavatórios de volumes fixos de descarga
- Instalação de torneiras dotadas de arejadores / restritores / volume reduzido de descarga
Captação, armazenamento e utilização de água proveniente da chuva
A captação, armazenamento e utilização de águas servidas (aquelas utilizadas no tanque, máquina de lavar, chuveiro e banheira), foi vetada pelo Prefeito, excluída da lei.
As medidas que visam o uso racional da água, após a regulamentação, terão aplicabilidade imediata para as novas construções, após a sua regulamentação.
As outras, atendimento às construções antigas e o reuso da água demandarão mais tempo para a regulamentação.
No caso específico da medição individualizada é necessário vencer o obstáculo de que somente é possível fazê-la em novas edificações. Esse sistema pode ser implantado em edifícios antigos sem grande dificuldade, e a um custo relativamente baixo, com pay back entre 10 a 24 meses.
A medição individualizada tem como objetivos específicos:
- Redução do desperdício de água
- Redução do consumo de energia elétrica pela diminuição do volume bombeado para o reservatório superior
- Identificação de vazamentos de difícil percepção
- Maior satisfação do usuário
- Redução do índice da inadimplência
- Redução do volume de efluentes de esgoto
- Redução das contas de água/esgoto dos apartamentos
A medição individualizada é uma técnica utilizada há muitos anos nos principais países, onde a água é escassa e de grande valor agregado, como na Alemanha, Portugal, França, Colômbia, Japão, etc.
Os custos de água/esgoto representam 33,3% da folha de despesas do condomínio. Em São Pedro do Turvo, em São Paulo, foi instalada a medição individualizada, e o consumo caiu em 20%.
A região metropolitana do Recife conta hoje com 55 mil apartamentos reformados para a medição individual, com redução de consumo entre 25% a 35% para 5% a 10%. A economia de energia foi de 30%.
O CDHU vem construindo conjuntos habitacionais inteligentes, com leitura individualizada nos apartamentos. A satisfação dos moradores é alta – cada um paga em média R$ 23,00/mês. E já estudam outras soluções como reuso de água.
Vantagens para a Construtora (em novos prédios)
- Em projetos hidráulicos elaborados criteriosamente, a economia nas instalações pode ser de até 20%
- Maior facilidade de venda dos apartamentos pela oferta da medição individualizada
- Melhoria da imagem institucional da empresa, pelo respeito ao meio ambiente
Ao finalizar gostaria de passar algumas informações:
Se fossem trocados só 240 mil vasos sanitários, economizaríamos praticamente o que é tirado do Sistema Alto Cotia. A estimativa da Secretaria de Recursos Hídricos é que existem 50 milhões de vasos sanitários na cidade de São Paulo, e na grande maioria, consumindo 30 litros em cada descarga.
Quando em 2004 houve um incentivo à redução de consumo de água com desconto de 20% para quem reduzisse o consumo, os moradores da Grande São Paulo economizaram 1/3 do volume de água do Guarapiranga.
80% das doenças e 30% dos óbitos no mundo são causados por águas poluídas.
De 1900 a 1990 – a demanda mundial de água aumentou 6 vezes. Um banho de 15 minutos de ducha de alta pressão consome 1.351 litros. Em um chuveiro normal 240 litros. Se fecharmos o chuveiro para nos ensaboar o consumo seria de 20 litros.
O Hospital Albert Einstein implantou o uso racional de água e teve uma redução da conta de R$ 117 mil/mês para R$ 30 mil.
De uma maneira geral, se aplicarmos o disposto na minha Lei, teríamos uma economia de água equivalente a um lago de Itaipu/ano, igual a 40 ou 50% do consumo de água atual.
É mister lembrar que o reuso de água de chuva e da água servida garantem que a água potável seja reservada para o consumo humano, sua destinação natural.
Bertold Brecht
“Do rio que tudo arrasta, se diz violento, mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem. E são os homens que moldam para matar ou fazer brotar de suas águas o futuro do planeta e da humanidade” |
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